O Ruca, quando nasceu, ficou como que imediatamente enjeitado e
desamparado. Entregue praticamente à Custódia, nossa empregada, filha do
Duma, cozinheiro, por acaso muito estimada, cresceu nas suas costas.
Tanto a sua mãe como, logo a seguir, o seu pai ficaram irreversivelmente
doentes. Cresceu, assim, sem o amparo, o carinho ou o colo da sua
mãe. As singularidades que o marcam ( a insegurança, o medo e a timidez )
resultam dessa infância desprovida do apoio materno. O braço forte do
pai não foi suficiente para suprir todos os seus medos e temores.
Hoje,
sabemos das descriminações de que foi vítima durante a sua infância;
dos insultos que ouviu enquanto miúdo; das humilhações que sofreu.
A sua irmã mais velha cuidou dele. Deu-lhe o que pôde, essencialmente liberdade.
"Se o nosso espírito pudesse compreender a eternidade ou o infinito, saberíamos tudo. Até podermos entender esse facto, não podemos saber nada."
Fernando Pessoa
26 maio 2026
O Ruca
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