" O pesado fardo do homem branco "

quinta-feira, janeiro 18, 2018

Cultivar na naca












Lutar pela sobrevivência era o pão nosso de cada dia !

Matrindindes !


















Coitados! Passaram um mau bocado quando  era miúdo. Além de os pôr a puxar caixas de fósforos, arrancava-lhes as patas. Este insecto é um símbolo da minha infância.

quarta-feira, janeiro 03, 2018

Nunca havemos de perceber !

É uma palavra esquisita. Estranha: esteatopigia ! Trás-me à memória a Saartijie, sul-africana, exibida em cidades europeias, como  se fosse um raro e estranho animal. E a Custódia, a “ babá “ que me ajudou a crescer. E penso: será que terei adormecido, alguma vez, nas suas costas, pousado suavemente nas suas  nádegas ? De certo não se comparariam às da Saartijie, mas  suportavam bem o meu corpo.

domingo, novembro 26, 2017

segunda-feira, novembro 06, 2017

Quero-o, ordeno-o, que a minha vontade se sobreponha à razão


No Tomolo, povoação comercial, havia apenas um comerciante. Situada junto ao rio Catumbela, tinha próximo o Bocóio, na margem direita, rico em plantações de rícino, de alto rendimento e elevada cotação. Entre outras, a família Mutete não dispunha de outro rendimento senão aquele produto, cuja colheita anual atingia vinte sacas, cerca de oitocentos quilos. Também cultivavam massango e milho, base da sua alimentação. Viviam desafogados dentro dos parâmetros da tribo. Para os bocoios, porém, o símbolo da riqueza era o gado. Possuir vacas e bois era uma ambição pessoal e de poder. Quem fosse possuidor de uma manada, podia casar com várias mulheres e obter ainda mais prestígio. O soba Jaca, à sua conta, tinha doze que viviam em casas dispersas em redor da principal. Nem sabia quantos bois tinha tão grande era a manada. As mulheres e os pastores é que davam conta dos nascimentos e dos abates. Era muito rico, respeitado e exemplo para as famílias mais novas e com ambição.
Mutete tinha apenas uma mulher, Chinola, e um filho. Trabalhador incansável, persistente e ambicioso tivera uma boa colheita. Juntara dinheiro e resolveu ir à procura de gado. Foi ao Tomolo, onde constava haver nemas de qualidade. Partiu acompanhado da mulher e do filho, que ela transportava às costas. Atravessaram o rio numa canoa e chegaram de manhã cedo à povoação. À porta da loja havia muitos fregueses, uns para comprarem pintados e panos, outros para comprarem gado. Falou com o comerciante, Marques da Silva, que o levou ao curral para escolher duas nemas. Apreciou a manada e depois de regatear o preço pagou dois contos pelos animais escolhidos.
Como tinha família no Cubal que há muito não via, resolveu andar mais uns quilómetros, até lá, para visitá-la. As nemas ficariam naquela povoação e no mesmo curral com o consentimento do vendedor, evitando cansá-las e a trabalheira da condução. Andou todo o dia para chegar à zanzala do tio que os recebeu com alegria, dando-lhes guarida e alimentação.
No dia seguinte foram todos à povoação, tanto mais que estava interessado nuns pintados e em missangas para a mulher. Beberam uns copos e já animados regressaram a casa, levando uns garrafões de vinho para continuarem a festejar o reencontro. Houve excessos e ficaram o dia seguinte em casa a curarem a ressaca
Voltaram ao Cubal, agora para comprarem fio de latão destinado a adereços para as pernas da mulher e do filhote. Comprou também um colete para si e uma sombrinha, peça prestigiante e que simbolizava maturidade.
Ficou por ali uma semana, comendo e bebendo, e dando conta da sua terra e notícias dos parentes que deixara. Ainda teve tempo para fazer do fio de latão argolas para as pernas da mulher e do filho. Ela já tinha uns guizos que, à medida dos passos, faziam o ruído característico, mas agora ficava mais bonita com aquele enfeite. Depois partiu de regresso ao Tomolo e à casa no Bocóio.

Chegou ao anoitecer à povoação e pernoitou junto à fogueira do guarda da loja, que repartiu o pirão e o peixe seco da sua refeição e lhes emprestou uma esteira para dormirem. Ouviram-no tocar quissanje durante parte da noite para afugentar o sono e não ser apanhado em falso pelo patrão.
De manhã cedo tomaram uma caneca de café e aguardaram a abertura do estabelecimento. Quando chegou a ocasião, Mutete pediu ao Marques da Silva as suas nemas para se fazer ao caminho.
    - Não! Não pode ser, pois temos de fazer contas.
    - Como assim? Então eu já tas paguei!
    - Não! Deves-me nove nemas.
    - Mas eu só comprei duas que paguei, como é que agora me cobras nove?
    - Aí é que está o busílis! Enquanto foste ao Cubal, as tuas nemas pegaram kahonha às minhas e elas morreram. Foram nove e tens que pagá-las.
    - Mas as minhas nemas viviam juntas das tuas e eu nem sequer toquei nelas e consentiste em guardá-las. Além do mais, só agora é que eu venho tomar posse delas.
    - Não. Tens que pagar o meu prejuízo. As tuas sobreviveram. Por isso foram elas que transmitiram a doença às minhas.
    - Uha! Isso não é justo e além de mais não tenho dinheiro.
    - Então ficam aqui as tuas nemas até me pagares as outras.
    - Não, senhor! Eu vou pegar nelas e levá-las já para a minha aldeia
    - Pagas e não refiles, seu negro de merda!
    - Aiuê! Mas paguei minhas vacas
    - Se não pagas a bem, vais pagá-las a mal.

Mutete estremeceu, sentindo ódio e raiva naquelas palavras do comerciante. Mas a sua razão e o seu orgulho deram-lhe coragem para ir ao curral levantar as nemas que eram suas. Enfurecido, Marques da Silva atacou-o às bofetadas, socos e pontapés, ferindo-lhe o sobrolho direito e cortando-lhe o lábio inferior.

    - Filha da puta de negro! Eu rebento-te. Vais ver se pagas ou não?

O corpo torturado de Mutete caiu em cima da bosta do curral ao lado das suas vacas. O sangue saía-lhe da boca e do nariz, sujando o colete novo. Logo que o agressor se afastou e que seus passos se deixaram de ouvir, ergueu-se estonteado e procurou a mulher que assistira aterrorizada ao massacre. Afastaram-se da loja e foram para casa de um amigo, deitando-se numa esteira. Ali passou a noite a sofrer e a meditar. No dia seguinte foi apresentar queixa com todos os vestígios da agressão.
E a vida custa…

sábado, novembro 04, 2017

O sol brilha para todos.


Estava um dia lindo. No quimbo atarefavam-se homens e mulheres a ensacar e a encher quindas de milho e batata para venderem na povoação comercial de Sacahundo. Uns fariam troca dos produtos por panos e cobertores; outros abastecer-se-iam de géneros de primeira necessidade. No quimbo ficaram apenas os velhos, os cães e a criação doméstica. Partiram a pé e em fila, homens carregando sacos aos ombros à frente e mulheres, de quindas à cabeça, na retaguarda, filhos às costas, seguros em panos amarrados pela cintura. Iam alegres e descontraídos, esperançados num bom negócio. Diziam piadas e tagarelavam para esquecerem o esforço da caminhada. Caminhavam pelo carreiro no meio da floresta que cheirava a capim molhado na noite de cacimbo Próximo da povoação pararam para descansar e aliviar necessidades. Algumas mães amamentavam os filhos recém-nascidos e davam de comer aos que já caminhavam a seu lado. Depois seguiram carregados dos pesados fardos e depressa chegaram às lojas. Optaram pela do Chindicuto, nome pelo qual era conhecido António Cardoso. Homem rude, grosseiro, explorador e gatuno. Tinha um estabelecimento bem fornecido e gozava da fama de praticar os melhores preços. Mas Cardoso não vendia apenas produtos de primeira necessidade. Tal como tantos outros, tinha uma destilaria clandestina, onde fabricava aguardente a partir de açúcar amarelo. Era uma bebida demasiado forte e diabólica. Constava que lhe acrescentava pilhas de lanterna pelo que, em dois tempos, o liquido arrumava qualquer bebedor Quando tinha que desembolsar uma soma elevadas pela
compra dos produtos, oferecia uma garrafa ao freguês que em pouco tempo caia que nem um tordo. Os serventes retiravam-no para o quintal para cozer a bebedeira, situação que Chindicuto aproveitava para colocar à volta dele quatro ou cinco garrafões vazios. Quando o freguês acordava ainda ressacado exigia-lhe o pagamento do falso consumo. Embora estranhasse a anormalidade, este não dispunha de argumentos para contrariar o comerciante e acabava por ficar de bolsos vazios.


Josefa, que tinha enviuvado antes de parir o filho, Lumingo, que transportava às costas, puxou-o para o peito e voltou a amamentá-lo. Era insuportável e devastadora a morte do marido. Trouxera apenas uma quinda de milho. Esperava poder comprar com a troca um pano e um lenço, pois os que trazia estavam a desfazer-se. Chegada a sua vez, pôs a quinda na balança e esperou ansiosa que lhe dissessem o valor a receber. Afinal eram apenas uns trocos. Chindicuto alegava que a quinda estava molhada para aumentar o peso, que o queria enganar, e que o milho que continha era menos do que uma arroba. E despejou o produto para o monte. Já não havia regresso. Mas, o que podia fazer? Obrigar o comerciante a devolver-lhe o milho. Tinha que aceitar. Não havia outro remédio. Sentia-se frustrada e desorientada. Desgostosa e psicologicamente abalada, comprou apenas o lenço, deixando o restante a troco de uma garrafa de aguardente que começou a beber para abafar as mágoas.

Ao fim da tarde, juntaram-se todos de novo e partiram de regresso ao quimbo, uns satisfeitos com o negócio, outros lamentando a ganância do comerciante que roubava no peso e no dinheiro. Alguns homens caminhavam aos tombos, embriagados. Também Josefa que não conseguira comprar o que desejava. Levava o bebé às costas com sérios riscos de o magoar num trambolhão. As outras mulheres lá a iam amparando e ajudando na caminhada. De quando em quando dava umas goladas para esquecer o sofrimento. Tentaram falar com ela, mas Josefa não ouvia, estava perdida no álcool com o sofrimento da recente perda e com a prepotência do comerciante. Começaram a ouvir latidos abafados de cães, sinal de proximidade do quimbo. Deixaram Josefa à porta da sua cubata já a noite ia avançada. Entrou no casebre que não tinha qualquer iluminação. Apenas se viam as brasas do fogo que deixara antes de partir, cuja lenha se decompusera em cinza. Era uma cabana pobre, como tantas outras. Além do fogo, permanentemente aceso ao meio, que servia de fogão, candeeiro e aquecedor nas noites frias, tinha uma esteira para se deitar, umas cabaças com água e panelas de barro. O tecto estava negro de fuligem. Era uma miséria. Bêbeda e cansada, caiu em verdadeiro coma alcoólico. A aguardente fizera estragos devastadores.

No quimbo dormia-se profundamente. Bem bebidos e estoirados da viagem, os habitantes caíram nas esteiras. Apenas se ouviam os cães a ladrar e os gritos lancinantes de uma criança insuficientes para acordar alguém. Aos poucos os gritos e os gemidos desapareceram. Voltou tudo a um silêncio sepulcral. Acordaram mais tarde do que o habitual. Nas cubatas reavivava-se o fogo para preparação da primeira refeição. As mulheres com latas velhas e cabaças foram ao rio para acartarem água e arrecadarem lenha. Tagarelavam sobre as compras do dia anterior. Os homens que possuíam bois abriram os currais para o gado apascentar ou para meterem na canga aqueles que haveriam de puxar a charrua. Outros, munidos de machados ou javites, foram derrubar mata para poderem lavrar novas terras. As mulheres estranharam a ausência de Josefa e procuraram saber se já estava recuperada dos exageros da bebida. Na sua cubata não se ouvia senão um ténue gemido. Alarmaram-se. Algo de grave  acontecera. Bateram à porta e como não obtivessem resposta resolveram entrar para saber o que estava a acontecer. Ficaram estarrecidas e pregadas ao chão com a cena que se lhes deparou. Josefa ao cair desamparada à noite, completamente desequilibrada pela bebida, nem se deu conta de o bebé que trazia ao colo ficara com o pé direito nas brasas. O fogo cozeu-o. O miúdo gritara a plenos pulmões, mas nem a mãe nem os vizinhos ouviram aqueles gritos lancinantes que foram esmorecendo longo da madrugada, acabando em chorados gemidos.

Não havia hospital por perto. Apenas a senhora Kirstein, uma alemã que tinha ali próximo uma pequena fazenda de café, lhes valia quando precisavam. Era uma mulher corajosa, solidária, que tinha tomado posse da roça do marido morto na grande guerra na frente russa. Vivia com dificuldades. E era a troco de trabalho que tratava homens, mulheres e crianças. Capinavam-lhe os cafeeiros e plantavam mais pés de café. Dispunha de uma pequena farmácia com pomadas, antibióticos e anti palúdicos. Tratava-os das febres, diarreias e feridas, abnegada e corajosamente. Tinha algumas vacas que lhe davam algum leite e fazia queijos e manteiga. Era um pequeno rendimento. Vivia pobre mas com esperança de um dia, quando começasse a colher café, melhorar a sua situação.
Foi ela que recebeu, esmagada, o martirizado Luminguinho, já sem os ossos do pé, carnes consumidas pelo fogo. Tratou-o com dedicação e coragem e sedou-o para dormir em paz. A mãe arrependida chorava a desgraça do filho. Se sobrevivesse, ficaria irremediavelmente aleijado. As perturbações psicológicas e aquela diabólica aguardente que lhe fulminou o cérebro contribuíram decisivamente para a desgraça. Permaneceu na roça da senhora alemã mais de quatro meses, pagando-lhe os tratamentos com trabalhos caseiros. Limpava-lhe a casa, carregava água e lenha. Voltou à cubata com um filho estropiado, coxo. Josefa nunca mais tocou em qualquer bebida.  E a vida custa …